
Hospital espiritual, agência de empregos para almas, terapia e filas fazem parte do universo imaginado por Daniela Yuri Uchino em "É Vida Que Segue! – Memórias póstumas de gente como a gente", livro que chega ao público durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em setembro. Doutora em Letras pela USP, a autora mistura humor, crítica social e filosofia para acompanhar personagens comuns que, após a morte, descobrem que o maior desafio não é morrer, mas aprender a seguir em frente.
A história começa quando um protagonista anônimo, à espera do ônibus após um longo dia de trabalho, é surpreendido pelo reencontro com a tia Valdívia, falecida anos antes. A cena dá início a uma jornada ambientada em um hospital espiritual, onde os recém-chegados precisam se adaptar a uma nova realidade marcada por regras, filas e até uma agência de empregos para almas. Aos poucos, o protagonista percebe que a morte não representa o fim de tudo, mas o começo de algo que ainda precisa compreender, percepção que atravessa toda a narrativa.
Nos contos "Já estávamos mortos e não sabíamos?", "Só acordei aqui" e "Terapia no Além", o livro apresenta personagens que representam diferentes facetas da condição humana. Aurélia, uma mãe de família sobrecarregada que morre de ataque cardíaco; Erick, um advogado que carrega o peso de ser "pai dos próprios pais"; Mark Purple, um cabeleireiro vaidoso que descobre um filho que nunca conheceu; e Anara, uma psicóloga que, no Além, realiza o sonho de publicar um livro de autoajuda. Cada história aborda questões universais como arrependimento, culpa, solidão e a busca por propósito.
Ao longo da obra, Daniela expõe as máscaras sociais e a dificuldade de ser autêntico ainda em vida. Depois de explorar o comportamento humano com humor em "Somos Todos Malas" (2021) e "O Natal dos Malas" (2022), a autora amplia seu olhar para questões existenciais sem abrir mão da ironia e da leveza que caracterizam sua escrita.
O processo criativo de "É Vida Que Segue!" nasceu do desejo de ampliar o universo de "gente como a gente" construído em seus livros anteriores. Daniela afirma que escreve para que os leitores, além do prazer da leitura, encontrem sentidos e significados nas histórias. Dedicada aos pais da autora e a todos aqueles que acreditam que a vida, de fato, segue, mesmo depois da morte, a obra adota uma estrutura de contos interligados. Os personagens se cruzam em diferentes momentos, criando uma narrativa dinâmica que permite ao leitor mergulhar em cada história de forma independente.
Entre os contos mais marcantes está o de Malcom, um homem solitário que, após ser assassinado, precisa reconstituir o próprio crime em uma sessão de imersão com inteligência artificial no Entre Mundos. Sua busca por respostas sobre quem o matou ecoa a violência urbana e a invisibilidade social, temas tratados pela autora com sensibilidade e sem maniqueísmo. Já Francisca, uma idosa que perde o filho e decide escrever uma carta com seus últimos desejos, conduz o leitor a uma reflexão sobre o luto e a solidão na velhice por meio de uma narrativa marcada pela honestidade.
A obra também dialoga com questões contemporâneas, como inteligência artificial, redes sociais e ansiedade. Em um dos contos, uma IA convida os mortos a revisitar o passado, despertando reflexões sobre a importância de aceitar as escolhas feitas em vida. Uma das personagens conclui que não se trata de mudar o passado, mas de revê-lo e aceitá-lo, lição que ressoa tanto entre os mortos quanto entre os vivos. Elementos como a Rádio Reencontro e a revista de mesmo nome estabelecem uma ponte entre o Além e a Terra, reforçando a ideia de que vida e morte permanecem em constante movimento.
Com uma narrativa que dialoga com a tradição das memórias póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, referência declarada da autora, "É Vida Que Segue!" vai além do entretenimento. O livro convida o leitor a refletir sobre suas escolhas, sobre aquilo que fica para trás e sobre a possibilidade de recomeçar, mesmo depois do fim. A carta final de Anara sintetiza essa proposta ao afirmar que a vida na Terra é uma passagem e que cada pessoa tem seu próprio tempo para seguir ao lado de outras, até que os caminhos se separem. Afinal, é vida que segue.
Daniela Yuri Uchino é paulistana, graduada, mestra e doutora em Letras pela USP. Antes mesmo de aprender a escrever, já criava histórias, inventava brincadeiras e imaginava diálogos, inclinação criativa que, ao longo dos anos, foi sendo direcionada para a escrita de narrativas literárias que retratam situações comuns do cotidiano de maneira bem-humorada e provocativa. É autora de "Somos Todos Malas" (2021) e "O Natal dos Malas" (2022). Também participou de diversas antologias, entre as quais se destacam "Nós – textos de autoria feminina" (2023, Selo Off Flip), "Prêmio Off Flip – Conto" (2024, Selo Off Flip) e "Contos para ler quando o amanhã chegar" (2025, Editora Oito e Meio). Mãe de duas adolescentes, Daniela vive em São Paulo, onde concilia a escrita com o ritmo intenso da metrópole.
Instagram: @danielayuriuchino
Site: www.danielayuriuchino.com.br
Título: É Vida Que Segue! – Memórias póstumas de gente como a gente
Autora: Daniela Yuri Uchino
ISBN: 978-65-02-22066-5
Gênero: Ficção brasileira
Número de páginas: 164
Editora: Edição da autora
Ano: 2026
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