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Halloween à brasileira: em Flores Astrais, o terror troca castelos por um casarão de café em Minas Gerais

Romance de estreia de Marcelo Nery adapta o gótico à paisagem brasileira e transforma heranças familiares, memória e conflitos sociais em matéria de horror

05/10/2026 às 14h20
Por: Marcela Güther
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Halloween à brasileira: em Flores Astrais, o terror troca castelos por um casarão de café em Minas Gerais

E se, em vez de um castelo europeu, o cenário do horror fosse uma fazenda de café no interior de Minas Gerais? É essa a proposta de Flores Astrais (Editora Mondru), romance de estreia de Marcelo Nery, definido pelo autor como uma “saga familiar gótica rural mineira”.

A história acompanha Tiago Amaral Grandi, que retorna à fazenda da família após a morte do pai, em 1980. Entre segredos, assombrações, intolerância e traumas transmitidos entre gerações, o passado volta a ocupar o casarão onde a família viveu por décadas.

Do castelo ao casarão de café

Para Marcelo Nery, o gótico não precisa de uma paisagem europeia para funcionar. “Se na Inglaterra o nevoeiro cobre o pântano, aqui a poeira vermelha sobe das estradas de terra. Se lá o corvo anuncia a morte, aqui o urubu observa em silêncio. O castelo medieval se transforma em casarão de café”, afirma Nery.

Mais do que uma mudança estética, a adaptação permite ao autor explorar um horror ligado às heranças brasileiras: terras, sobrenomes, silêncios, violências e relações de poder que atravessam gerações. “O gótico sempre foi uma literatura sobre heranças que já deveriam ter se tornado pó a sete palmos. E o Brasil é um país estruturado sobre heranças.”

Quando a casa também assombra

Em Flores Astrais, o casarão é parte da narrativa. Seus espaços, objetos e símbolos ajudam a construir a atmosfera de suspense, enquanto elementos do cotidiano mineiro, como o café, os “causos”, as damas-da-noite e a belladonna no jardim, ganham uma dimensão inquietante.

A escritora Jarid Arraes, que assina o prefácio, destaca: “O verdadeiro gótico se mostra na atmosfera rica em experiências sensoriais, nos segredos que se entranham entre móveis e corpos, e na herança psicológica que se recusa a morrer.”

O sobrenatural é apenas uma das camadas do romance. A obra também aborda hierarquias familiares, intolerância religiosa e preconceito sexual, aproximando o horror de conflitos atravessados pela história brasileira.

Quando a realidade é mais assustadora

Tiago cresce na cidade grande, se descobrindo como ser humano. Durante esse período, que passa pela ditadura militar, Tiago se torna membro de uma frente de resistência, e o Flores Astrais nos transporta para um centro urbano, fugindo da fazenda de café momentaneamente, intercalando capítulos no presente e no passado. Assim, Nery nos contrapõe entre a realidade de uma capital, Belo Horizonte, e o fantástico na fazenda de café. É nesse momento que o leitor entende que o mundo real pode ser mais assustador que fazendas assombradas.

Um escritor entre mundos

A construção de Flores Astrais também é atravessada pela trajetória de Nery. Formado em Ciência da Computação, foi professor universitário por 16 anos e criou e coordenou o curso de Jogos Digitais da PUC Minas. Atualmente, atua como coordenador de game design e sênior game designer na ARVORE Immersive Experiences, desenvolvendo projetos de realidade virtual e aumentada para empresas como Meta, Universal Studios, Sony e Blumhouse.

“Escrevo como quem investiga um mistério: com método, mas também com intuição.”

Para o escritor Santiago Nazarian, Flores Astrais é “um épico familiar muito bem estruturado, misturando suspense, o kitsch e a crítica social com muito tempero”.

Neste Halloween, o romance propõe uma pergunta: e se os fantasmas mais assustadores não fossem os que vêm de fora, mas aqueles que herdamos?

Sobre o autor

Marcelo Nery nasceu em Belo Horizonte. Formado em Ciência da Computação, foi professor universitário por 16 anos e criou e coordenou o curso de Jogos Digitais da PUC Minas. Atualmente, atua como coordenador de game design e sênior game designer na ARVORE Immersive Experiences. Também publicou o jogo de tabuleiro Don Juan, pela 999 Games. Flores Astrais, da Editora Mondru, é seu primeiro romance.

 

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