
E se, em vez de um castelo europeu, o cenário do horror fosse uma fazenda de café no interior de Minas Gerais? É essa a proposta de Flores Astrais (Editora Mondru), romance de estreia de Marcelo Nery, definido pelo autor como uma “saga familiar gótica rural mineira”.
A história acompanha Tiago Amaral Grandi, que retorna à fazenda da família após a morte do pai, em 1980. Entre segredos, assombrações, intolerância e traumas transmitidos entre gerações, o passado volta a ocupar o casarão onde a família viveu por décadas.
Para Marcelo Nery, o gótico não precisa de uma paisagem europeia para funcionar. “Se na Inglaterra o nevoeiro cobre o pântano, aqui a poeira vermelha sobe das estradas de terra. Se lá o corvo anuncia a morte, aqui o urubu observa em silêncio. O castelo medieval se transforma em casarão de café”, afirma Nery.
Mais do que uma mudança estética, a adaptação permite ao autor explorar um horror ligado às heranças brasileiras: terras, sobrenomes, silêncios, violências e relações de poder que atravessam gerações. “O gótico sempre foi uma literatura sobre heranças que já deveriam ter se tornado pó a sete palmos. E o Brasil é um país estruturado sobre heranças.”
Em Flores Astrais, o casarão é parte da narrativa. Seus espaços, objetos e símbolos ajudam a construir a atmosfera de suspense, enquanto elementos do cotidiano mineiro, como o café, os “causos”, as damas-da-noite e a belladonna no jardim, ganham uma dimensão inquietante.
A escritora Jarid Arraes, que assina o prefácio, destaca: “O verdadeiro gótico se mostra na atmosfera rica em experiências sensoriais, nos segredos que se entranham entre móveis e corpos, e na herança psicológica que se recusa a morrer.”
O sobrenatural é apenas uma das camadas do romance. A obra também aborda hierarquias familiares, intolerância religiosa e preconceito sexual, aproximando o horror de conflitos atravessados pela história brasileira.
Tiago cresce na cidade grande, se descobrindo como ser humano. Durante esse período, que passa pela ditadura militar, Tiago se torna membro de uma frente de resistência, e o Flores Astrais nos transporta para um centro urbano, fugindo da fazenda de café momentaneamente, intercalando capítulos no presente e no passado. Assim, Nery nos contrapõe entre a realidade de uma capital, Belo Horizonte, e o fantástico na fazenda de café. É nesse momento que o leitor entende que o mundo real pode ser mais assustador que fazendas assombradas.
A construção de Flores Astrais também é atravessada pela trajetória de Nery. Formado em Ciência da Computação, foi professor universitário por 16 anos e criou e coordenou o curso de Jogos Digitais da PUC Minas. Atualmente, atua como coordenador de game design e sênior game designer na ARVORE Immersive Experiences, desenvolvendo projetos de realidade virtual e aumentada para empresas como Meta, Universal Studios, Sony e Blumhouse.
“Escrevo como quem investiga um mistério: com método, mas também com intuição.”
Para o escritor Santiago Nazarian, Flores Astrais é “um épico familiar muito bem estruturado, misturando suspense, o kitsch e a crítica social com muito tempero”.
Neste Halloween, o romance propõe uma pergunta: e se os fantasmas mais assustadores não fossem os que vêm de fora, mas aqueles que herdamos?
Marcelo Nery nasceu em Belo Horizonte. Formado em Ciência da Computação, foi professor universitário por 16 anos e criou e coordenou o curso de Jogos Digitais da PUC Minas. Atualmente, atua como coordenador de game design e sênior game designer na ARVORE Immersive Experiences. Também publicou o jogo de tabuleiro Don Juan, pela 999 Games. Flores Astrais, da Editora Mondru, é seu primeiro romance.
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