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*A escola não falhou. Quem falha é a sociedade*

Muita gente conhece o nome de um bairro, de uma rua, de um monumento, mas não sabe por que aquele lugar existe. Sou professor de História e essa é uma pergunta que sempre me acompanha: por que a gente sabe o nome das coisas, mas não sabe a história delas?

14/08/2026 às 12h02
Por: Redação
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*A escola não falhou. Quem falha é a sociedade*

*A escola não falhou. Quem falha é a sociedade*

_Por Matheus Buente_

Muita gente conhece o nome de um bairro, de uma rua, de um monumento, mas não sabe por que aquele lugar existe. Sou professor de História e essa é uma pergunta que sempre me acompanha: por que a gente sabe o nome das coisas, mas não sabe a história delas?

Passamos pelo Farol da Barra sem parar para entender a importância daquele lugar. Muita gente não sabe como o Pelourinho foi parar onde está. E isso não é um problema só de Salvador ou da Bahia. Acontece em cidades de todo o Brasil.

Falta apropriação da história local. E isso importa não apenas para conhecer o passado, mas para entender o presente, valorizar os espaços onde vivemos e construir uma relação de pertencimento com eles.

Costumo dizer que é preciso conhecer o lugar onde se vive antes de conhecer o mundo. Não porque conhecer o mundo seja um problema. Pelo contrário. Mas, se você transforma tudo em uma grande ideia de mundo, corre o risco de não saber mais qual é o seu lugar nele. Onde você se encontra? De onde vêm as suas referências? O que faz você proteger as suas tradições?

Conhecer a própria cidade é uma forma de responder a essas perguntas e de preservar, com identidade, aquilo que nos torna quem somos em um mundo cada vez mais globalizado.

Vale uma distinção aqui, porque ela muda tudo. Um aluno pode, sim, sentir que pertence ao próprio bairro. Ali estão pessoas que ele ama, pessoas que o tratam bem, lugares marcados na memória. Esse pertencimento afetivo existe e é real.

Mas é diferente de conhecer a importância daquele lugar: como ele chegou até ali, quem foram as pessoas que tornaram aquela existência possível, se é um bairro que resistiu, como se desenvolveu e por que isso aconteceu. Uma coisa é amar o lugar onde se vive. Outra é entender o lugar onde se vive. A escola deveria ensinar as duas coisas.

É aí que mora uma das coisas que mais me encantam como professor: fazer o aluno se reconhecer naquilo que está aprendendo. Tudo tem alguma ligação com a nossa realidade. Algumas são mais distantes, outras mais próximas. O aluno também é personagem histórico. Ele pode fazer coisas importantes, coisas que um dia estarão registradas, porque está aprendendo sobre pessoas que, de alguma maneira, estão próximas dele.

Isso fica muito claro quando dou aula de História da Bahia, principalmente quando falamos sobre a Independência e o 2 de Julho. Os meninos vibram, comemoram, querem ir ao desfile, tirar foto, fazer camiseta. O sentimento de pertencer a um lugar importante é bonito de ver. É desse brilho no olho que sinto falta em outras aulas.

E aqui vai uma coisa que talvez surpreenda: em termos de currículo, estamos bem. Por incrível que pareça, o ensino de História regional já é obrigatório nas escolas baianas. O que falta não é lei. É mecanismo para fazer esse conteúdo acontecer de verdade: uma estruturação melhor, materiais didáticos mais adequados e, principalmente, cobrança para que isso seja efetivamente trabalhado.

Na prática, existe uma diferença grande entre as redes. Nas escolas públicas, esse trabalho acontece com mais frequência. Nas particulares, existe uma pressão enorme pela aprovação no Enem.

E vamos ser sinceros: o Enem também virou um grande negócio. Existe toda uma lógica de status, de mostrar que o filho está em uma determinada escola, com uma determinada farda. Mas, principalmente, existe a expectativa das famílias de que o ensino privado garanta uma boa nota no Enem.

O problema é quando o Enem deixa de ser meio e passa a ser finalidade. O objetivo deixa de ser ensinar História e passa a ser tirar uma nota alta, porque é isso que as famílias esperam como retorno daquele investimento. E, como o Enem é uma prova nacional, a história local acaba ficando de lado.

Se um aluno termina o Ensino Médio sem saber por que a rua onde mora tem esse nome, a escola falhou?

Eu não acho que sim. Acho que quem falha é a sociedade.

Vivemos em uma lógica baseada em consumo, velocidade e atropelo. Passamos pelas coisas sem prestar atenção nelas, sem ter aquele momento em que alguém nos apresenta os nossos monumentos, os nossos heróis e as nossas referências.

E isso tem uma consequência prática. Quando você não conhece o valor de um patrimônio, para você tanto faz se ele é ouro ou entulho. Se você não sabe por que aquele lugar é importante, não desenvolve uma relação de cuidado com ele.

Salvador tem sofrido com isso. A especulação imobiliária, intervenções urbanas ruins, sítios históricos descaracterizados e a perda de referências paisagísticas mostram o resultado dessa falta de conexão. Muitas vezes, deixamos determinadas coisas acontecerem porque não nos importamos com elas. E quem não se importa, muitas vezes, é porque nunca soube o motivo para se importar.

Não acho que dá para resolver isso jogando a culpa apenas na escola. Existe um problema maior quando a escola deixa de ser vista como espaço de formação de cidadãos e passa a ser vista apenas como um lugar para formar gente que passa no Enem.

E dá para fazer as duas coisas. Dá para formar gente que tira nota alta e, ao mesmo tempo, excelentes cidadãos. Pessoas que valorizam a própria cidade, cuidam dela e ajudam a torná-la um lugar mais bonito e preservado, como a gente costuma admirar tanto nas cidades europeias e japonesas.

Estar na cidade, ocupar as ruas e saber o significado delas também é formação. É reconhecer o que nossos antepassados e as pessoas próximas a nós fizeram de importante.

Antes de conhecer o mundo, a gente precisa saber onde está nele.

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