
Cézar Mendes faz da canção um país em "Itapuano"
Novo álbum do compositor baiano reúne Caetano Veloso, Chico Buarque, Marisa Monte, Adriana Calcanhotto e outros convidados em 12 faixas escritas com Arnaldo Antunes

foto: Bob Wolfenson
Cézar Mendes lança hoje, 06 de novembro, “Itapuano”, seu segundo álbum. O disco traz doze faixas escritas e compostas com Arnaldo Antunes e conta com a participação de Caetano Veloso, Marisa Monte, Chico Buarque, Alice Caymmi, Adriana Calcanhotto, Tom Veloso, Sophie Charlotte, Antonio Zambujo, Moreno Veloso, Pedro Miranda e Mário Adnet. “Itapuano” chega às plataformas de música pela Uns Produções.
Ouça aqui: https://orcd.co/itapuano
Leonardo Lichote
Na sala do apartamento de Cézar Mendes, João Gilberto não dizia nada. Enquanto Cézar fazia diante dele a melodia que mais tarde se tornaria “João”, o baiano ouvia em silêncio. Quando alguma passagem não o convencia, ele levantava um dedo e fazia sinal de negativo, o suficiente para que o compositor voltasse àquele trecho e procurasse outro caminho. A música nasceu assim, acompanhada por uma espécie de supervisão muda do homem a quem seria dedicada. Depois, já com a letra de Arnaldo Antunes, Cézar pôde cantá-la para João.
João se emocionou e chorou ao ouvir a homenagem pronta. A canção abre “Itapuano”, segundo álbum de Cézar, e oferece uma chave possível para as onze faixas que vêm depois. Na letra, Arnaldo escreve sobre alguém capaz de inaugurar uma nação sem monumentos nem “balas de canhão”, apenas com voz, violão e silêncio. Entre os efeitos dessa invenção está o de “dar sentido à nossa sensação”. O verso parece condensar uma das vocações mais poderosas da canção popular: encontrar forma, palavra e melodia para algo que existe antes de ser nomeado, uma percepção difusa e ao mesmo tempo compartilhada. João Gilberto aparece, assim, como aquele que transforma essa sensação coletiva em linguagem. Ao fim da letra, a multidão escuta o coração e “se torna civilização”. Cantada por Caetano Veloso, “João” parte de João Gilberto para chegar a uma ideia de Brasil.
De certa maneira, o resto de “Itapuano” se passa dentro desse país aberto pela primeira faixa. Se “João” atribui à canção a capacidade de dar sentido a uma sensação coletiva, as onze músicas seguintes fazem justamente isso em escala cotidiana: dão forma a maneiras de amar, de desejar, de esperar, de perder, de lembrar.
Cézar e Arnaldo estão juntos na autoria das doze canções — em algumas delas com reforços como Marisa Monte, Carminho, Mario Adnet e Marcia Xavier. Nas composições da dupla, um homem pode admitir que seu desejo está “maior do que o Brasil”, outro põe a sardinha para assar e compra a cerveja no bar, alguém espera inutilmente diante da janela enquanto a pessoa amada talvez esteja olhando uma tela. Itapuã surge com seus coqueiros e a água morna batendo nas pernas. São fragmentos cotidianos de uma civilização erguida em canção.
Há mais de duas décadas, Cézar e Arnaldo trabalham em torno de um princípio simples: primeiro vem a melodia. Cézar compõe ao violão e entrega a música ao parceiro sem determinar o que ela deverá dizer.
— Eu não converso com nenhum dos meus parceiros, não sugiro nenhuma letra. Eu não penso, não me meto, não digo nada — conta o violonista. — Por sorte, todas falam de amor.
Arnaldo descreve o processo por outro ângulo. Diante de uma melodia de Cézar, ele procura escutar o que já parece contido nela, respeitando divisões silábicas e acentos para que as palavras adquiram naturalidade de fala. Chama de “simplicidade sofisticada” essa qualidade que reconhece na música do parceiro, de parecer que já carrega a letra em si. “A intenção da canção está presente na origem de tudo que faz”, escreve o letrista a respeito de Cézar.
O álbum nasceu de uma sugestão do jornalista Claudio Leal. Cézar pensava em fazer um disco, sem saber ainda qual, quando ouviu dele a ideia de dedicar um trabalho inteiro às parcerias com Arnaldo. O repertório reúne músicas acumuladas ao longo dos anos e quatro inéditas: “Se não dá, não dá”, “Apenas milagre”, “Papel de bobo” e “Colibri”.
Mário Adnet foi decisivo para transformar esse conjunto em “Itapuano”. Produtor, arranjador e orquestrador das doze faixas, ele colaborou também na seleção do repertório. Cézar conta que lhe entregou as canções com ampla liberdade para construir a sonoridade do álbum.
— Eu me entreguei totalmente nas canções a ele, com uma confiança terrível — lembra Cézar. — E ele realmente tomou conta. Mário é genial, um cara incrível, sensível, muito delicado.
Essa delicadeza está na maneira como o álbum atravessa linguagens. “Também pede bis”, com Chico Buarque, visita o samba de salão em seu desenho dos metais. Em “O culpado é o cupido”, Adriana Calcanhotto canta um samba-canção que poderia ter vindo de outro tempo até que o personagem declare: “quero ser seu namorado, mas eu topo só ficar”. “Enquanto passa outro verão”, com Sophie Charlotte, carrega o balanço da bossa nova para uma cena contemporânea — alguém na porta de um prédio na expectativa de ser visto por quem talvez olhe tanto a tela que já não mira a janela.
O título leva o disco para um lugar especial na biografia de Cézar. Nascido em Santo Amaro da Purificação, ele viveu cerca de 25 anos em Itapuã e diz amar o bairro tanto quanto sua terra natal.
— É um lugar para onde eu vou voltar antes de morrer, com certeza — afirma o compositor. — Estou aqui no Rio porque preciso fazer música e tenho que me misturar. Se não, estaria lá.
Foi exatamente no caminho para Itapuã que nasceu a melodia de “Aquele frevo axé”, primeira composição de Cézar, depois letrada por Caetano Veloso e gravada por Gal Costa. O bairro, portanto, atravessa sua própria descoberta como compositor.
“Itapuana”, faixa que dá origem ao nome do álbum, faz desse lugar uma paisagem íntima. Mônica Salmaso e Cézar cantam um dia que começa antes do nascimento do sol. A areia massageia os pés, a água morna molha as pernas, os coqueiros conhecem as canções. O inevitável diálogo com “Tarde em Itapuã”, de Vinicius de Moraes e Toquinho, se dá noutro momento do dia — aqui, Itapuã amanhece, enquanto vontades chegam e saudades partem. No fim da letra, o bairro é definido com precisão poética por Arnaldo: “lugar público, colo e útero amoroso de Yemanjá”.
A faixa seguinte, “Amor se acalme”, desloca o disco da beleza de acordar para a beleza de dormir. Marisa Monte canta a noite que chega, o corpo em repouso e o desejo de amanhecer “a cada dia um pouco mais” ao lado de alguém. A passagem de uma música à outra explicita algo muito marcado em “Itapuano”, a maneira como as canções conversam entre si — a ordem das faixas foi sugerida por Caetano.
Essa conversa se torna ainda mais nítida perto do fim. “Umbigo”, interpretada por Tom Veloso e composta para seu filho Benjamin, parte da marca deixada pelo cordão umbilical para tratar da origem e da circularidade. O mundo gira, o tempo passa, o dia acorda e vai dormir. É uma canção, enfim, sobre o movimento permanente. Na última faixa, “Desistiu de mim”, com Pedro Miranda, a mesma imagem reaparece dentro de um samba amoroso. Depois de ser mandado embora, o personagem vê a situação se inverter e constata que “o mundo dá voltas”.
Entre essas pontas, o amor ganha contornos variados. Moreno Veloso encontra a malícia de “Se não dá, não dá”, samba em que o narrador percebe que virou apenas “petisco” para quem desejava como “manjar” e resolve sair da disputa. Alice Caymmi assume decisão semelhante em “Papel de bobo”. António Zambujo canta a espera amorosa de “Apenas milagre”. “Colibri”, que entrou quando o álbum já estava praticamente gravado, descreve alguém disposto a seguir solto, “sem complicar”, enquanto o vento o leva. Cézar convidou Mário Adnet para cantá-la como reconhecimento por uma relação musical que atravessa boa parte de sua trajetória. Daniel Jobim toca piano na faixa.
Os convidados pertencem à história de Cézar, que não teve dificuldades em imaginar quem cantaria o quê:
— “Também pede bis” é a cara de Chico. E “João” eu fiz sabendo quem ia cantar, tinha que ser Caetano, o maior discípulo dele. Não tinha outro — explica Cézar. — Todos eles se viram nas canções que cantaram.
Em “Depois enfim”, seu primeiro álbum solo, lançado em 2018, Cézar cantava discretamente, quase escondendo a voz na mixagem. Em “Itapuano”, o compositor traz sua voz mais pra frente. Segundo ele, Caetano teve responsabilidade nisso.
— No outro disco eu cantei pouco — conta Cézar. — Era quase uma sombra, que eu pedia para deixar o mais longe possível na mixagem, para não aparecer. Mas dessa vez Caetano falou para eu cantar. Então eu disse: “Tá, vou tentar”.
O canto de Cézar é um movimento central de “Itapuano”. Durante décadas, ele assinou parcerias com Caetano, Marisa Monte e Arnaldo Antunes, teve canções gravadas por Gal Costa, Chico Buarque e Roberta Sá, participou dos Tribalistas como violonista e compositor. Agora, sem abandonar a natureza compartilhada que sempre marcou seu trabalho, deixou sua voz ocupar mais espaço dentro de suas canções.
Tudo começa, porém, com aquele homem silencioso diante do violão. “João” apresenta uma ideia que “Itapuano” leva adiante durante todo o percurso: a tradição da canção como matéria viva, transmitida no tempo e no espaço, sempre capaz de mudar sem perder a memória de onde veio. Ao falar de seu alinhamento a essa tradição, Cézar resume:
— A gente não pode deixar isso morrer.
Em “Itapuano”, mantê-la viva é fazê-la circular. Como o mundo de “Umbigo”. Como o amor que muda de lado em “Desistiu de mim”. Como uma melodia que Cézar toca diante de João Gilberto, recebe a poesia de Arnaldo e se materializa na voz de Caetano para — em sua força de síntese — abrir caminho para as outras do disco. E para as próximas que o futuro trará, das mãos de Cézar e dos que vierem, sempre dando sentidos às sensações do país.

Itapuano – Cezar Mendes
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