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Cinco livros brasileiros adaptados para o cinema, por Cesar Garcia Lima
De relatos autobiográficos a fábulas e metaficção, veja como histórias marcantes da literatura nacional ganharam novas camadas e significados ao saltarem das páginas para as telonas
28/10/2026 18h13
Por: Marcela Güther
Crédito: Camila Shaw

Nesta seleção de títulos, tive em mente livros que são destaques no universo literário brasileiro de várias épocas e que, transpostos para as telas, são redimensionados em seu alcance ficcional, incluindo, formas diversas como o relato autobiográfico e a metaficção

AINDA ESTOU AQUI (2015), de Marcelo Rubens Paiva

O livro ganhou um novo alcance a partir da repercussão internacional de sua adaptação para o cinema em 2024, dirigida por Walter Salles e protagonizada por Fernanda Torres. O relato autobiográfico do autor paulistano percorre sua infância e vida adulta, tendo como um dos marcos a prisão de seu pai, o deputado Rubens Paiva, em 1971, durante a ditadura militar. O foco principal, no entanto, é a relação com a mãe, a advogada Eunice Paiva. O livro, bem mais denso e multifacetado do que a versão para as telas, entra em detalhes sobre a trajetória militante de Eunice depois do desaparecimento do marido.

EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS (2005), de Marçal Aquino

O romance traz como elemento de destaque a complexidade psicológica de seus protagonistas: o fotógrafo Cauby, o pastor Ernani e a mulher dele, Lavínia, em uma cidade da Amazônia dominada pelo garimpo. Nesse cenário ardente (em vários sentidos), o relacionamento entre Cauby e Lavínia se intensifica e expõe fragilidades e contrastes entre a urbanidade e o interior. A versão cinematográfica dos diretores Renato Ciasca e Beto Brant, de 2011, surpreende por não explicar em excesso as ótimas digressões do livro.

A HORA DA ESTRELA (1977), de Clarice Lispector

A novela de Clarice Lispector é um livro único na literatura brasileira com um irônico narrador (Rodrigo M) metaficcional que especula sobre sua própria vida a partir do sofrimento de Macabéa, uma personagem marcada pela ingenuidade e a pobreza. Em 1985, a diretora Suzana Amaral cometeu a proeza de levar essa história para as telas excluindo esse narrador e deixando brilhar em sua humildade a singela protagonista interpretada por Marcélia Cartaxo. O que parecia uma heresia narrativa se converte em um dos filmes mais expressivos do caráter brasileiro.

O PAGADOR DE PROMESSAS (1960), de Dias Gomes

A peça de Dias Gomes é baseada na simplicidade de seu personagem principal, Zé do Burro, que busca cumprir uma promessa em agradecimento à vida de seu animal de estimação. Como uma fábula questionadora, o filme contrapõe a fé do personagem e a sociedade e seus mecanismos de controle. Adaptado para o cinema por Anselmo Duarte, a história ganhou caráter universal, foi premiado no Festival de Cannes de 1962, e subsiste até hoje em uma versão em preto e branco protagonizada por Leonardo Villar e Glória Menezes.

RELATO DE UM CERTO ORIENTE (1989), de Milton Hatoum

A prosa labiríntica do autor amazonense ganhou versão cinematográfica em preto e branco de Marcelo Gomes e é encenada de forma mais linear do que o livro, mas não menos fascinante e envolvente. Do Líbano à Amazônia, os irmãos Emilie e Emir, católicos, atravessam os mares para fugir da guerra, mas enfrentam suas próprias paixões e preconceitos para se estabelecerem no Brasil. É, ao mesmo tempo, uma viagem etnográfica e existencial.


*Cesar Garcia Lima encontrou uma forma de olhar o mundo. Nascido em Rio Branco, no Acre, em 1964, e vivendo no Rio de Janeiro desde 1995, o escritor construiu uma obra marcada pela atenção aos pequenos acontecimentos, às identidades em trânsito e às relações humanas. Depois de publicar quatro livros de poesia, ele consolida sua produção em prosa com Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital (Editora 7Letras, 2025), livro de contos, e Vida desencaixada (Editora Patuá, 2024), reunião de crônicas que, neste segundo semestre de 2026, circula pelo circuito Sesc Pulsar em dez unidades do estado do Rio de Janeiro.