Cultura DANÇA
Espetáculo “Sentido” transforma Libras em matéria de criação
Dirigido por Maxmiler Junio, montagem incorpora parâmetros da Língua Brasileira de Sinais à dança
08/10/2026 17h01
Por: Felipe Souza Pedrosa
Naya Aurora

Em “Sentido”, espetáculo do Ballet Jovem Minas Gerais (BJMG), a Libras deixa de ser apenas um recurso de acessibilidade e passa a integrar a própria linguagem da dança. Dirigido por Maxmiler Junio, o trabalho é pensado para a comunidade surda, incorporando parâmetros da Língua Brasileira de Sinais, expressão facial, espaço visual e movimento à dramaturgia. A proposta é construir uma experiência artística em que a acessibilidade não seja acrescentada ao espetáculo depois de pronto, mas participe da criação desde o primeiro movimento. Apesar de pensado para a comunidade surda, a montagem também é aberta ao público ouvinte.

Entre palavras, poemas, gestos e silêncios, “Sentido” investiga diferentes formas de comunicar, perceber e estar no mundo. O espetáculo é fruto do projeto “Ballet Jovem apresenta: Silêncios em Movimento”, aprovado na LMIC 2025 – Multilinguagens, do Fundo Municipal de Cultura. A iniciativa chega ao processo de criação a partir de uma pesquisa que acompanha Maxmiler há cerca de dez anos. Formado em Dança pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o diretor investigou, durante a graduação, as relações entre dança e Libras e de que maneira elementos da língua poderiam dialogar com a dança contemporânea.

Para a criação do espetáculo, a pesquisa foi levada para a sala de ensaio, onde os dançarinos e as dançarinas passaram a trabalhar os parâmetros da Libras em diálogo com os procedimentos da dança. “Pesquisei na faculdade o que da linguagem Libras contempla a dança. A dança contemporânea cria possibilidades. Dentro desse processo, a questão é o desdobramento. Estudei com o elenco os parâmetros da linguagem Libras, as práticas artísticas e o espaço visual. E, considerando os parâmetros da Libras, utilizei os da dança para fazer a cena”, explica Maxmiler.

Em “Sentido”, esse princípio não se limita à presença de sinalização. Os movimentos são construídos a partir de relações entre corpo, expressão facial, espaço e sentido. Um gesto pode sugerir uma imagem ou uma ação sem necessariamente reproduzir de forma literal um sinal. A intenção é ampliar as possibilidades de comunicação por meio da dança. “A Libras não aparece no espetáculo como representação, ela é incorporada na dança, na sinalização. Cada movimento sugere, por meio do corpo e do sentido, uma camada de Libras ampliada. É poesia, palavras somadas aos parâmetros da Libras, do corpo, da relação, da expressão facial e do emaranhado de possibilidades dos dois universos”, afirma o diretor.

A artista surda oralizada Edmeia Miriam Cupertino participa desse processo como consultora de Libras. Poeta e artista, Edmeia começou a atuar no campo artístico há cerca de oito anos, depois de ser incentivada a criar e apresentar poesias em saraus. Em 2020, recebeu um prêmio pela poesia de estreia, “Refúgio”. A aproximação com “Sentido” levou para dentro da criação uma perspectiva construída a partir da experiência de uma artista surda. “Quando vi o espetáculo ainda estava no começo, me deram dois textos para trabalhar. A maior dificuldade foi fazer os textos serem entendidos pelos surdos. Achei que seria melhor explicar em Libras com minhas próprias palavras, facilitando para os outros o entendimento”, conta Edmeia.

A consultoria ocorreu de forma presencial e online, acompanhando diferentes etapas da construção. Para Edmeia, a experiência também representa um novo território artístico. “Fiz teatro, filme e musical. Faltava a dança dar seu ar e mostrar seu potencial”, afirma.

A música também integra o espetáculo, mas é pensada a partir de outra relação com o som. Em vez de reproduzir ruídos cotidianos para representar determinadas ações, a criação investiga a vibração, a pulsação e a dimensão sensorial da música. A escolha parte de uma pergunta central para o projeto: como trabalhar a música em uma obra pensada também para quem não ouve? “Eu entendo a música como uma camada de corpo, de música. O projeto se chama ‘Sentido’. Mas o que é o silêncio? Temos a pulsação, o interno do coração, isso gera algum tipo de som. Que música seria possível?”, questiona Maxmiler.

A resposta encontrada pela equipe passa pela ampliação da noção de escuta. O espetáculo procura construir sentidos também pelo movimento, pela vibração, pela imagem e pela relação entre os corpos. A intenção é que o público ouvinte também tenha acesso a essa experiência sem que a obra seja estruturada a partir de uma tradução daquilo que acontece em cena. “Esse meu desejo em trabalhar com Libras tem dez anos. Nesse tempo, fui me aproximando da comunidade surda, buscando na universidade matérias que não eram obrigatórias, que envolvessem a dança e as necessidades especiais. Eu sou um artista do movimento. Essa camada me aproxima da comunidade”, afirma.

O objetivo, agora, é que a experiência ultrapasse a apresentação do espetáculo, previsto para estrear em novembro. Maxmiler espera que o contato com a obra desperte no público o interesse pela Libras, pela cultura surda e por outras formas de pensar acessibilidade. “Eu gostaria que o público tivesse o interesse em compreender melhor a comunidade surda, aprender Libras. É uma camada nova, um papo curtinho, parâmetros, imagens, desejo de comunicar, poesias, relação artística e sair dali com desejo de aprender mais sobre acessibilidade, assim como se envolver com a comunidade surda”, confessa o artista.

Ao colocar a Libras dentro da criação, “Sentido” propõe uma investigação sobre as possibilidades da dança quando diferentes formas de comunicação passam a compartilhar o mesmo espaço artístico. A obra aproxima corpo, língua e imagem em um processo no qual acessibilidade e criação deixam de ocupar lugares separados e passam a construir, juntas, a dramaturgia do espetáculo.