O Super El Niño também pode acelerar o desgaste da pintura dos veículos. A combinação entre calor extremo, radiação ultravioleta, umidade e poluentes compromete progressivamente a eficiência do verniz, principal camada de proteção do acabamento automotivo, e pode antecipar a necessidade de reparos quando a manutenção preventiva é negligenciada.
A preocupação ganhou força após o primeiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo Governo Federal em junho, apontar mais de 90% de probabilidade de o fenômeno persistir até o início de 2027, com possibilidade de atingir forte intensidade. A previsão inclui temperaturas acima da média, chuvas intensas em parte do Sul do país e maior frequência de eventos climáticos extremos.
Segundo Maykon Cordeiro, especialista em pintura automotiva industrial, os efeitos não aparecem de forma imediata, mas se acumulam ao longo do tempo. "O verniz é a principal camada de proteção da pintura contra os agentes externos. Quando ele perde eficiência por falta de manutenção, o calor, a chuva e os contaminantes começam a agir diretamente sobre a superfície, reduzindo sua durabilidade".
O alerta encontra respaldo técnico. Fabricantes de tintas automotivas explicam que o produto funciona como uma barreira contra a radiação ultravioleta, agentes químicos, umidade e pequenas agressões mecânicas. Com a exposição contínua ao ambiente, essa camada sofre um processo natural de degradação, reduzindo gradualmente sua capacidade de proteger a pintura. Estudos sobre revestimentos automotivos mostram que os aditivos responsáveis por absorver a radiação UV também perdem eficiência com o tempo, acelerando o envelhecimento do acabamento.
Os primeiros sinais costumam aparecer nas áreas mais expostas ao sol, como teto, capô e tampa do porta-malas. A perda de brilho, pequenas manchas permanentes e alterações no acabamento indicam que parte da proteção do verniz já foi comprometida.
Mas o sol não é o único vilão. Outro fator que merece atenção é a chuva ácida. Em regiões urbanas, poluentes presentes na atmosfera podem reagir com a água da chuva e atacar a superfície do veículo quando as gotas permanecem secando naturalmente sobre a pintura. "Se, depois da lavagem, continuam aparecendo marcas de gotas que não saem facilmente, esse já é um indicativo de que o carro precisa de manutenção. Um bom enceramento ajuda a criar uma camada de proteção e faz com que a água escorra com mais facilidade", explica Cordeiro.
Para ele, um dos maiores mitos dos proprietários é acreditar que encerar o carro serve apenas para deixá-lo mais bonito. "Encerar o carro não é apenas uma questão estética; é manutenção preventiva. A cera cria uma camada adicional de proteção sobre o verniz, reduz a ação da água e dos contaminantes e ajuda a prolongar a vida útil da pintura".
Essa é uma das maiores surpresas da indústria automotiva. Embora muita gente associe veículos de luxo a uma pintura mais espessa, o especialista explica que essa percepção nem sempre corresponde à realidade. "Um carro de alto padrão pode ter praticamente a mesma espessura de tinta de um veículo popular. O que muda é a tecnologia empregada nos materiais, a qualidade do verniz, o controle do processo de pintura e o acabamento final."
Outro equívoco frequente entre os motoristas é acreditar que a chuva provoca ferrugem na lataria. Na prática, isso só acontece quando a proteção da pintura já foi rompida.
Segundo Maykon, a água, por si só, não provoca corrosão. O problema surge quando riscos profundos deixam a chapa metálica exposta, permitindo que a umidade entre em contato direto com o metal. Nesses casos, a recomendação é realizar o reparo o quanto antes ou utilizar uma caneta de retoque para selar temporariamente a área danificada até que seja possível fazer o conserto definitivo.
Para reduzir os impactos do clima extremo sobre a pintura, Cordeiro recomenda alguns cuidados simples que ajudam a preservar o acabamento e evitar gastos desnecessários:
• Lavar o veículo regularmente para remover resíduos de poluição e chuva ácida;
• Fazer enceramentos periódicos para reforçar a proteção do verniz;
• Reparar rapidamente riscos profundos que exponham a chapa metálica;
• Sempre que possível, estacionar em locais cobertos ou protegidos da incidência direta do sol;
• Remover o quanto antes fezes de aves, seiva de árvores e outros resíduos que possam reagir quimicamente com a pintura.
Além de preservar o acabamento, essas medidas reduzem os efeitos da exposição contínua ao calor, à umidade e aos contaminantes, evitando que pequenos danos evoluam para reparos mais complexos e caros.
"A pintura é a primeira barreira de proteção do veículo contra as agressões do ambiente. Quando o verniz perde eficiência, toda essa proteção fica mais vulnerável. Pequenos danos que poderiam ser evitados acabam evoluindo para reparos muito mais caros. Cuidar da pintura não é apenas uma questão estética; é uma forma de preservar o patrimônio e manter o valor do veículo ao longo dos anos", conclui Cordeiro.