Saúde cirurgias
Navegação em tempo real amplia precisão em cirurgias complexas de ombro
Tecnologia integra tomografia e planejamento tridimensional durante procedimentos que serão realizados em Salvador
21/09/2026 12h31
Por: Jacson Gonçalves dos Santos
Créditos das fotos: Roque Holanda

Uma tecnologia que permite ao cirurgião acompanhar, em tempo real, o planejamento feito antes da operação será utilizada em duas cirurgias complexas de ombro nos dias 29 e 30 de setembro, no Hospital Santa Izabel, em Salvador. A navegação cirúrgica assistida por computador integra imagens de tomografia e planejamento tridimensional à execução do procedimento, fornecendo informações que ajudam a orientar o posicionamento das próteses.

Os dois pacientes passarão por situações bastante diferentes. Uma mulher de 66 anos, com artrose avançada e dor mais intensa no ombro esquerdo, receberá sua primeira prótese. Já o segundo paciente utiliza uma prótese há cerca de 12 anos e precisará passar por uma nova cirurgia após apresentar dor, perda de movimentos e desgaste ósseo na região onde o implante é fixado.

“Podemos pensar na navegação como um mapa que é preparado antes da cirurgia e pode ser consultado enquanto o procedimento acontece. A tomografia nos permite estudar cada detalhe da anatomia, planejar onde queremos posicionar a prótese e, durante a operação, conferir se estamos seguindo aquele planejamento”, explica o ortopedista Marcus Vinicius Martins, especialista em cirurgia do ombro e cotovelo.

A anatomia do ombro não é exatamente igual em todas as pessoas. Além das diferenças naturais entre os pacientes, doenças como a artrose podem provocar deformidades e desgaste do osso. Em quem já passou por uma cirurgia anteriormente, essas alterações podem ser ainda maiores. Por isso, imagens de tomografia são utilizadas para criar uma representação tridimensional da articulação, permitindo ao cirurgião estudar previamente as características daquele ombro e definir aspectos importantes da colocação e da fixação da prótese.

Artroplastia reversa - No primeiro procedimento, a paciente será submetida a uma artroplastia reversa do ombro esquerdo. Nesse tipo de cirurgia, a forma de funcionamento da articulação é modificada para permitir que o músculo deltoide participe mais ativamente dos movimentos do braço. A técnica pode ser indicada, entre outras situações, quando estruturas responsáveis pela movimentação e estabilidade do ombro estão comprometidas.

“Na prótese reversa, mudamos a maneira como a articulação funciona para que o deltoide possa ter um papel maior no movimento do braço. Ao reorganizar a mecânica do ombro, tratamos situações em que a articulação já apresenta um comprometimento importante”, esclarece o ortopedista.

Cirurgia mais desafiadora - O segundo procedimento apresenta uma dificuldade adicional. O paciente já possui uma prótese implantada há aproximadamente 12 anos e apresenta perda óssea na região da escápula onde o implante precisa ser fixado. Além das alterações provocadas ao longo do tempo, pode haver redução da quantidade de osso disponível para sustentar a nova prótese, tornando necessário identificar as melhores áreas para fixação e preservar o tecido ósseo existente.

“Uma cirurgia de revisão é como reconstruir uma estrutura quando algumas das referências originais já foram modificadas. Precisamos descobrir onde há osso em boas condições, como posicionar o novo implante e qual a melhor forma de fixá-lo. É justamente nesse tipo de situação que um planejamento detalhado pode ser especialmente útil”, afirma Marcus Vinicius Martins.

Cirurgião no controle - Com a navegação, o cirurgião acompanha na tela informações relacionadas à posição da prótese e aos pontos escolhidos para sua fixação, comparando o que está sendo realizado com o planejamento feito antes da operação. Nos dois procedimentos será utilizado o sistema ExactechGPS®. O recurso não opera o paciente nem toma decisões de forma autônoma: a escolha da técnica, a interpretação das informações e a execução de todas as etapas permanecem sob responsabilidade do médico.

“A tecnologia não substitui o cirurgião. Ela amplia as informações disponíveis. Quem decide o que fazer e executa cada etapa continua sendo o médico. O objetivo é utilizar esses dados para realizar uma cirurgia cada vez mais individualizada, principalmente nos casos em que a anatomia é mais complexa”, ressalta o especialista.

A navegação, no entanto, não significa ausência de riscos nem garantia de resultados. Como em qualquer cirurgia, a evolução depende de diferentes fatores relacionados ao procedimento, às condições clínicas e anatômicas do paciente e à recuperação pós-operatória.