“Comecei com um ateliê. Depois virou casa compartilhada. Depois começou a aparecer gente que só queria ver o que estava acontecendo ali dentro. Quando me dei conta, tinha artista morando, criando, expondo e ensinando no mesmo lugar.”
É assim que Gustavo Zimmermann resume a trajetória que deu origem à Colmeia Artística Coletiva, espaço independente que, em novembro de 2024, ganhou oficialmente esse nome a partir de uma parceria com Nil Monteiro. A casa, localizada em Santa Teresa, nasceu sem um plano de negócios definido e foi se transformando a partir das necessidades de artistas que passaram a ocupar o espaço para morar, criar, ensinar e apresentar seus trabalhos.
Nos dias 19, 20, 26 e 27 de setembro, a Colmeia integra a programação da 34ª edição do Arte de Portas Abertas, tradicional circuito que há mais de três décadas transforma Santa Teresa em um percurso de ateliês, espaços de criação e casas abertas ao público.
Para Zimmermann, o nome Colmeia Artística Coletiva não é apenas uma metáfora. A referência está relacionada à ideia de uma estrutura construída pela colaboração entre diferentes funções e indivíduos.
“Uma colmeia não funciona por hierarquia, funciona por função: cada corpo faz o que sabe fazer, e o que sustenta a estrutura é a soma”, explica.
A lógica também está presente na organização física da casa. Os diferentes ambientes receberam nomes inspirados no universo das colmeias e cumprem funções específicas dentro do projeto.
O Espaço Néctar concentra a convivência, com palco e bar. A Melgueira, referência à caixa superior de uma colmeia, abriga a galeria e os espaços destinados às oficinas. O Ninho ocupa uma antiga piscina vazia, transformada em palco rebaixado, com o público acompanhando as apresentações de cima. Já o Favo Artístico recebe a feira de peças autorais, enquanto o Pólen é destinado às crianças.
Mais do que uma programação pontual, a proposta da Colmeia é manter um ciclo permanente de criação, formação e apresentação. A residência artística contribui para a sustentabilidade financeira das atividades, enquanto os processos de formação alimentam a programação e a convivência entre artistas se torna parte do próprio aprendizado.
Para participar do Arte de Portas Abertas, a Colmeia realizou uma chamada pública que recebeu mais de 50 inscrições. O número de propostas, segundo Zimmermann, tornou a seleção um dos processos curatoriais mais difíceis realizados pelo coletivo.
“A Colmeia abriu chamada pública e recebeu mais de cinquenta inscrições, muito além do que quatro dias comportam. Foi a curadoria mais difícil que já fiz”, afirma.
A dificuldade, segundo o fundador, não esteve na qualidade dos trabalhos, mas na necessidade de construir uma programação possível dentro do tempo e das características dos espaços.
O resultado reúne cerca de 30 artistas e diferentes linguagens, entre música, teatro, dança, circo, palhaçaria, poesia, cinema, artes visuais, cerâmica e moda autoral.
A programação inclui espetáculo teatral voltado para bebês de zero a seis anos, com interpretação em Libras; apresentações de malabarismo; fanfarra de carnaval; teatro de bonecos com sessões limitadas a 20 pessoas; exibição de filme seguida de roda de conversa; performance de cabaré; poesia em línguas originárias; DJ sets; além de exposições e atividades formativas.
A galeria reúne trabalhos de sete artistas visuais e a feira apresenta peças de produção autoral.
Entre os destaques da programação estão os trabalhos desenvolvidos ao longo do ano nos laboratórios de canto e improviso da própria Colmeia. Depois de dois meses de processo, os participantes levam os resultados para o palco durante o circuito.
Para Zimmermann, esse processo representa uma das principais características do projeto.
“Para mim isso é o coração da coisa. O festival não é um evento isolado, é o momento em que o trabalho contínuo se torna público.”
A perspectiva ajuda a definir a Colmeia não apenas como um espaço de apresentações, mas como um ambiente de produção, experimentação e formação artística.
Toda a programação do circuito na Colmeia será gratuita e de livre acesso. A exceção é uma imersão de costura criativa com pigmentos naturais, voltada à transformação de resíduos têxteis em bolsas. A atividade terá vagas afirmativas destinadas a pessoas indígenas, negras, LGBTQIAPN+, com deficiência e em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
O projeto também mantém uma característica que, para o coletivo, é fundamental: a independência em relação a patrocínios, editais e mecanismos de incentivo fiscal.
A Colmeia não conta atualmente com patrocínio, edital ou incentivo fiscal para realizar a programação. Segundo Zimmermann, a manutenção das atividades depende da colaboração entre artistas, equipe e comunidade.
“O que acontece aqui acontece porque muita gente decidiu construir junto — artistas que cedem seu trabalho, uma equipe que se desdobra, uma vizinhança que acolhe.”
A participação no Arte de Portas Abertas torna essa estrutura ainda mais visível. Durante quatro dias, um espaço que normalmente funciona como residência, ateliê, sala de ensaio, galeria e local de formação passa a receber o público para conhecer de perto os processos que acontecem ao longo do ano.
A trajetória da Colmeia Artística Coletiva traduz uma característica comum a muitos espaços independentes: a construção acontece antes mesmo de existir uma estrutura formal para abrigá-la. No caso de Zimmermann, o ateliê foi se tornando casa, a casa virou espaço compartilhado e a convivência abriu caminho para uma programação artística permanente.
Agora, durante o Arte de Portas Abertas, essa experiência ganha uma dimensão pública.
“É pouco, e é muito. Num país onde a cultura independente vive sob pressão constante, manter uma casa aberta quatro dias por ano, de graça, com trinta artistas, é uma afirmação sobre que tipo de cidade eu quero habitar.”
A frase sintetiza a proposta que atravessa o projeto: fazer da casa um espaço onde a arte não seja apenas apresentada como produto final, mas possa ser vivenciada como processo, encontro e experiência coletiva.
Durante quatro dias, as portas da Colmeia estarão literalmente abertas para que o público conheça não apenas os trabalhos dos artistas, mas também o lugar onde criação, formação e convivência acontecem.
“Uma onde a arte não esteja atrás de bilheteria. Onde a criação seja processo, não só produto. E onde a porta, literalmente, esteja aberta.”
-Crédito imagem @kalvaide Alva Kali