E se conceitos usados para criar jogos pudessem ser aplicados à construção de um romance? É a partir dessa pergunta que Marcelo Nery desenvolve Flores Astrais (Editora Mondru), sua estreia na literatura. Game designer, professor e profissional de realidade virtual, o autor transpõe para a narrativa literária ferramentas e formas de pensamento que fazem parte de sua trajetória na criação de experiências interativas.
A história acompanha Tiago Amaral Grandi, que retorna à fazenda de café da família após a morte do pai, em 1980. No casarão, cercado por segredos, assombrações, intolerância e traumas herdados, arquitetura, objetos e símbolos não funcionam apenas como cenário: são elementos de um sistema narrativo que o leitor precisa explorar e interpretar. Como em um jogo.
Formado em Ciência da Computação pela PUC Minas, com mestrado e doutorado pela UFMG e parte do doutorado na Technische Universiteit Delft, na Holanda, Nery foi professor universitário por 16 anos e criou e coordenou o curso de Jogos Digitais da PUC Minas.
Desde 2022, atua como coordenador de game design e sênior game designer na ARVORE Immersive Experiences, onde desenvolve projetos de realidade virtual e aumentada para empresas como Meta, Universal Studios, Sony e Blumhouse. Também teve experiência com jogos de tabuleiro, incluindo a publicação de Don Juan pela 999 Games.
Essa experiência levou o autor a pensar a literatura a partir de princípios associados aos jogos. “Jogo é interação, livro é interpretação, mas ambos são, em síntese, sistemas de regras que proporcionam uma experiência”, explica.
Um dos conceitos incorporados ao processo de criação de Flores Astrais é o flow, descrito pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi como um estado de imersão profunda. Na literatura, Nery busca um efeito semelhante por meio da consistência do universo narrativo, criando regras internas que permitem ao leitor avançar pela história sem perder a imersão.
Outro conceito é o círculo mágico, espaço delimitado no qual as regras de um jogo passam a valer. No romance, essa ideia aparece na construção do casarão de café mineiro, que deixa de ser apenas cenário para funcionar como um sistema que organiza personagens, conflitos e símbolos.
“Ao pensar o casarão de café, busquei construir mais do que um cenário: um sistema que influencia os personagens. O átrio central, onde a belladonna se instala, funciona como eixo de tensão ao longo da narrativa. Objetos reaparecem, carregando sentidos que nem sempre são imediatos, e o leitor vai reorganizando essas informações à medida que avança”, explica.
A influência do game design também aparece na estrutura do romance. Flores Astrais alterna presente e passado e diferentes vozes narrativas, apresentando informações que posteriormente ganham novos sentidos. Como em uma investigação, o leitor precisa conectar pistas, acontecimentos, personagens e símbolos para reconstruir a história.
“Gosto de pensar que escrevo como quem investiga um mistério”, afirma Nery. O processo combina sua experiência em computação e game design com seu interesse pelo tarô e por estruturas simbólicas.
Embora dialogue com a tradição do gótico, Flores Astrais desloca seus elementos para o interior de Minas Gerais. Castelos dão lugar a casarões de café, nevoeiros a poeira vermelha e corvos a urubus.
Nesse cenário, o sobrenatural se mistura à memória familiar e a questões como herança colonial, escravidão, ditadura, intolerância religiosa e preconceito sexual. O romance combina horror, saga familiar e construção de mundo, utilizando uma lógica de criação influenciada pelo universo dos jogos.
A escritora Jarid Arraes, responsável pelo prefácio da obra, destaca o papel do sobrenatural no romance: “Flores Astrais é um romance delicioso no seu uso do sobrenatural, algo que ultrapassa os recursos de um gênero e se revela como linguagem.”
Livro: Flores Astrais
Autor: Marcelo Nery
Gênero: Ficção, saga familiar gótica
Editora: Mondru
Ano: 2025
Site: www.marcelonery.com
Instagram: @autor.marcelonery
Onde adquirir: www.mondru.com/produto/flores-astrais/