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Martinho da Vila e Mart’nália celebram samba, afeto e legado em noite histórica em Belo Horizonte
Turnê “Pai e Filha” passou pelo Arena Hall
05/09/2026 01h06
Por: Redação

Martinho da Vila e Mart’nália celebram samba, afeto e legado em noite histórica em Belo Horizonte

Turnê “Pai e Filha” passou pelo Arena Hall nesta sexta-feira (4) e transformou o encontro entre duas gerações do samba em uma celebração marcada por música, cumplicidade e memória afetiva

Belo Horizonte viveu, na noite desta sexta-feira, 4 de setembro, um daqueles encontros em que o significado ultrapassa o próprio espetáculo. Martinho da Vila e Mart’nália subiram ao palco do Arena Hall com a turnê “Pai e Filha”, projeto que coloca lado a lado duas trajetórias ligadas pelo sangue, pelo samba e, sobretudo, pela construção de identidades artísticas próprias.

A apresentação começou às 21h30 e integrou uma turnê especialmente simbólica: é a primeira excursão completa realizada por pai e filha e foi anunciada por Martinho como sua última grande turnê nacional. Aos 88 anos, o sambista decidiu diminuir o ritmo das longas viagens pelo país, fazendo desse giro também uma espécie de celebração de sua trajetória. 

Mas chamar “Pai e Filha” simplesmente de despedida seria reduzir o que acontece no palco. O espetáculo trabalha muito mais com a ideia de continuidade.

Martinho não aparece apenas como o veterano reverenciado por décadas de história. Ao dividir a cena com Mart’nália, ele mostra que seu legado também está naquilo que conseguiu transmitir sem impedir que a filha encontrasse a própria voz.

E Mart’nália deixa isso evidente.

Mart’nália abre caminho para a grande celebração

Com seu estilo descontraído, interpretação particular e uma relação espontânea com a plateia, Mart’nália mostrou por que há muito tempo deixou de ser apenas “a filha de Martinho da Vila” para ocupar um espaço próprio dentro da música brasileira.

Sua trajetória foi construída entre samba e MPB, passando por trabalhos importantes e por parcerias com nomes como Caetano Veloso e Maria Bethânia. Antes mesmo da carreira solo se consolidar, Mart’nália já havia convivido diretamente com o ambiente musical de Martinho, participando de apresentações e absorvendo uma formação construída muito mais dentro das rodas de samba do que em qualquer escola formal de música. 

No palco em Belo Horizonte, essa personalidade apareceu com naturalidade.

Mart’nália conduziu seus momentos sem tentar reproduzir o estilo do pai. Há influência, evidentemente, mas existe também independência. Seu canto tem balanço próprio, humor e uma forma de interpretar que aproxima o público.

Essa diferença entre os dois, curiosamente, é um dos pontos fortes do espetáculo.

Quando Martinho chega, o público entende o tamanho do momento

A entrada de Martinho da Vila mudou imediatamente a atmosfera da noite.

Não apenas pelo reconhecimento ao artista, mas pela relação que suas músicas estabeleceram com diferentes gerações presentes no Arena Hall.

Poucos compositores brasileiros conseguem reunir em um mesmo repertório músicas que são lembradas não apenas pelos títulos, mas por situações da vida. São sambas que passaram por festas, encontros familiares, bares, carnavais, programas de rádio e televisão e continuam circulando décadas depois de terem sido lançados.

É justamente aí que está uma das maiores forças de Martinho.

Sua obra fala de amor, relações humanas, cotidiano, negritude, comunidade, alegria e contradições brasileiras com uma linguagem aparentemente simples, mas carregada de observação.

No show, essa identificação ficou evidente na resposta da plateia.

“Mulheres” transforma Arena Hall em grande coro

Entre os momentos mais aguardados veio “Mulheres”, uma das canções mais populares da trajetória de Martinho.

Bastaram os primeiros sinais da música para o público reconhecer o clássico e acompanhar praticamente em coro.

É uma cena que ajuda a explicar a permanência de Martinho da Vila na cultura popular brasileira: muitas de suas músicas parecem já não pertencer exclusivamente ao intérprete.

Elas foram apropriadas pelo público.

Quando milhares de pessoas cantam juntas, o palco deixa de funcionar como uma divisão entre artista e plateia. Martinho conduz, mas quem completa a música é o público.

“Mulheres” foi justamente um desses momentos.

A canção, que atravessou décadas e permanece entre as mais solicitadas de seus shows, ganhou ainda mais força dentro de um espetáculo cujo principal assunto, mesmo sem precisar ser explicitado, é o tempo.

Um repertório sustentado pela memória

Ao longo da apresentação, sucessos da carreira de Martinho se encontraram com músicas representativas da trajetória de Mart’nália.

O formato de “Pai e Filha” foi concebido justamente para permitir momentos individuais e outros em que os dois dividem o palco. Desde o anúncio da turnê, pai e filha ressaltaram que o espetáculo também preservaria espaço para espontaneidade e improvisação. 

Clássicos associados ao universo de Martinho, como “Casa de Bamba”, além de músicas como “Disritmia”, fazem parte do repertório previsto para a turnê, enquanto Mart’nália leva ao encontro o repertório e o balanço que marcaram sua própria carreira. 

Mais importante do que a quantidade de sucessos, porém, é a forma como as músicas aparecem.

Não existe a sensação de uma simples retrospectiva.

Existe uma narrativa.

Cada canção parece ajudar a contar um pedaço de uma história artística que começou muito antes de Mart’nália subir profissionalmente aos palcos.

Pai e filha — mas dois artistas

O título do espetáculo poderia sugerir uma relação de protagonismo e coadjuvação.

Não é o que acontece.

Martinho e Mart’nália apresentam diferenças claras de personalidade artística, e justamente por isso a parceria funciona.

Ele traz a experiência de quem ajudou a escrever capítulos fundamentais do samba brasileiro.

Ela traz uma interpretação contemporânea desse universo, criada dentro da tradição, mas sem ficar aprisionada a ela.

Mart’nália cresceu em meio ao samba e chegou a participar dos shows do pai antes mesmo de decidir que faria da música uma profissão. Mais tarde, construiu uma discografia própria e tornou-se uma artista reconhecida independentemente do sobrenome artístico que carrega. 

No espetáculo, essa história ganha materialidade.

Há troca de olhares, brincadeiras, cumplicidade e aquela intimidade impossível de ser ensaiada.

O público percebe quando existe roteiro.

Também percebe quando existe afeto verdadeiro.

Uma despedida sem clima de adeus

Existe naturalmente uma carga emocional adicional por “Pai e Filha” ter sido apresentada como a última grande turnê de Martinho da Vila.

Mas o artista faz questão de estabelecer uma diferença importante.

Não se trata necessariamente de abandonar a música ou nunca mais subir aos palcos. Martinho declarou que pretende encerrar as longas excursões nacionais, reduzindo a rotina de viagens depois desta temporada. 

Isso altera completamente o significado do espetáculo.

Em vez de uma noite melancólica, o que Belo Horizonte recebeu foi uma celebração.

A sensação não era de funeral artístico, mas de reconhecimento.

Martinho está escolhendo como deseja viver uma nova etapa da própria carreira.

E escolher fazer essa transição ao lado de Mart’nália transforma uma decisão profissional em uma declaração sobre continuidade.

O pai diminui o passo.

A música segue caminhando.

O samba como herança que não fica parada no tempo

Talvez seja esse o ponto mais inteligente de “Pai e Filha”.

Legado não significa simplesmente preservar aquilo que já foi feito.

Significa permitir que aquilo que foi criado encontre novas vozes, novos públicos e outras formas de existir.

Martinho da Vila construiu uma obra profundamente conectada à cultura brasileira e à escola de samba Unidos de Vila Isabel, transformando experiências aparentemente cotidianas em músicas conhecidas por diferentes gerações.

Mart’nália nasceu dentro desse universo, mas escolheu transformá-lo à sua maneira.

Quando os dois aparecem juntos no palco, não existe apenas uma passagem simbólica de bastão.

Há algo mais interessante: duas gerações coexistem.

Uma não apaga a outra.

Belo Horizonte entra para a história da turnê

A apresentação desta sexta-feira colocou Belo Horizonte entre as cidades escolhidas para receber esse capítulo especial da carreira de Martinho.

O show ocorreu no Arena Hall, na Avenida Nossa Senhora do Carmo, e integrou o giro nacional de “Pai e Filha”, iniciado no Rio de Janeiro em maio. 

Para o público mineiro, ficou uma noite de samba, memória e reconhecimento.

Para Mart’nália, mais uma oportunidade de dividir profissionalmente com o pai um palco que começou a frequentar ainda muito jovem.

E para Martinho da Vila, mais uma parada em uma trajetória que atravessa décadas sem perder uma característica essencial: sua capacidade de conversar diretamente com o público.

No fim, talvez “Pai e Filha” tenha justamente esse mérito.

É um espetáculo sobre família sem depender do sentimentalismo.

É uma retrospectiva sem parecer um museu.

É uma despedida das grandes turnês que, curiosamente, fala muito mais de continuidade do que de fim.

E quando Martinho chama uma das mais pedidas da noite e o público responde cantando “Mulheres”, fica evidente que determinadas obras não precisam se preocupar tanto com despedidas.

Elas já encontraram uma maneira de permanecer.

Por Ronaldo Fish | Rolê com Fish
Belo Horizonte – MG