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Cinco autores nordestinos que você precisa conhecer
De Fortaleza a Picos, cinco vozes da literatura independente contemporânea mostram a diversidade da ficção produzida no Nordeste hoje
30/08/2026 02h58
Por: Marcela Güther

A literatura nordestina contemporânea não cabe em uma única chave temática. Ao lado de narrativas que revisitam a seca e o sertão, também florescem romances urbanos sobre ascensão social, contos que usam o Carnaval como metáfora e fábulas políticas que dialogam com o realismo mágico. A seguir, cinco autores independentes que representam esse leque de vozes e estilos.

Do sertão paraibano ao litoral pernambucano, passando por Fortaleza e pelo semiárido, essas obras têm em comum a raiz regional e a coragem de tratar de temas como memória, violência de Estado, masculinidade e identidade a partir de diferentes tradições literárias,  do Romance de 30 ao realismo mágico latino-americano.

Não volte sem ele, de Rafael Caneca
Publicado pela Editora Mondru, o romance de estreia do cearense revisita um dos episódios mais violentos e menos conhecidos da história brasileira: os campos de concentração criados no Ceará durante a seca de 1932, usados pelo governo para impedir que retirantes chegassem à capital. A trama acompanha Tomás, jovem que parte em busca do irmão desaparecido e descobre, no caminho, verdades devastadoras sobre a violência de Estado contra a população pobre do sertão. O livro nasceu de um conto escrito para uma coletânea do Coletivo Delirantes, grupo de escritores de Fortaleza do qual Rafael Caneca faz parte. Rafael Caneca é escritor e servidor público, radicado em Fortaleza, e venceu o primeiro lugar no Prêmio de Literatura BNB Clube 2017 com o conto "Tapera".

A duração entre um fósforo e outro, de Zulmira Correia

Essa foi a obra vencedora da categoria poesia do Tato Literário - 1º Prêmio com.tato de Literatura Independente, promovido pela com.tato, marcando a estréia do selo Tato Literário, que é destinado aos contemplados da premiação. No livro, a autora utiliza-se de uma linguagem que se cruza entre a prosa poética e o verso livre, nos levando, de forma experimental, a acompanhar os processos mentais narrativos de uma mulher que se encontra em um momento de transição: desocupar a sua casa da infância para vendê-la em dois dias, mas esse tempo acaba se dissociando na medida em que o texto se amplia. 

 

O homem não foi feito para ser feliz, de Maurício Mendes
Também publicado pela Mondru, o romance de estreia do médico cearense narra em primeira pessoa a trajetória de Germano, homem pardo que ascende socialmente pela Medicina, mas carrega frustrações afetivas, cinismo e um persistente sentimento de inadequação numa sociedade marcada por racismo e misoginia. Com prefácio do escritor Santiago Nazarian, o livro mistura sexualidade, luto, crítica social e reflexões sobre literatura. Maurício Mendes nasceu em Fortaleza em 1970, é médico especialista em Medicina Nuclear e mantém uma página de divulgação literária sem fins lucrativos, além de mediar clubes de leitura na capital cearense.

Mátria de Laís Romero 

Como o próprio título sugere, trata-se de uma busca pelo lugar de expressão da mulher. Não qualquer mulher, uma mulher que tem um corpo, uma origem, um país, uma mátria, nordestina e singular. A partir do seu desejo, da ancestralidade que remonta a Lilith, aquela que renunciou a um suposto paraíso, Laís mergulha na materialidade de ser mulher para encontrar enfim seu  pathos, sua capacidade de comover e afetar a nós, leitores, com sua poesia. Na obra, a autora convida a atravessar a pele-papel que a separa do mundo, mas que também serve de superfície para explorar sua poesia, sua língua, sua escrita e seu bordado. O silêncio, o cansaço e a sensação de fracasso servem de subtexto e impulsionam o seu desejo; o desejo, já realizado, de ser artista, de ter o próprio corpo como matéria-prima de sua arte, um corpo que flutua, que dança, que resiste, que faz poesia.

 

Frevo noir, de Paulo André Souza

Publicado pela Editora Mondru, o livro de estreia do pernambucano reúne 16 contos que transformam o Carnaval em metáfora narrativa para revelar um Recife atravessado por desigualdades, crimes, paixões e paradoxos existenciais. Mais do que cenário, a capital pernambucana funciona como organismo: a festa e a tensão social convivem em fricção permanente ao longo da obra. Paulo André Souza é delegado da Polícia Federal, formado em Direito e especialista em Ciências Criminais, com extensão em Escrita Criativa pela PUCRS.