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Por que os brasileiros se identificam tanto com a cultura coreana?
Por: Yoo Na Kim, jornalista e escritora
25/08/2026 11h07
Por: Letícia Lemos

Há alguns anos, falar sobre a Coreia do Sul no Brasil deixou de ser algo restrito a quem conhecia o país, sua história e cultura. Hoje, a Coreia está presente na música, nas séries, no cinema, gastronomia, na beleza, moda e no cotidiano de milhares de brasileiros. E, com a realização de mega shows de grupos de K-Pop como o BTS no país, essa presença ganha ainda mais visibilidade.

Mas existe uma questão que considero mais interessante do que simplesmente constatar esse sucesso: por que os brasileiros se identificam tanto com a cultura coreana?

Acredito que parte da resposta esteja nas semelhanças que encontramos onde, à primeira vista, imaginaríamos apenas diferenças.

Entre os países orientais, os coreanos são reconhecidos como os “italianos da Ásia” por serem mais extrovertidos, gostarem de moda, terem uma vida social mais intensa e estarem mais antenados com a cultura.

Somos comunicativos, temos energia e somos mais intensos na hora de demonstrar nossos sentimentos. Existe esse lado festeiro, alegre e expansivo que aproxima muito os dois povos.

Essa identificação fica ainda mais evidente quando olhamos para o K-pop. Para mim, há uma proximidade muito interessante entre o fenômeno do K-pop e o Carnaval brasileiro. São linguagens diferentes, mas ambas valorizam a música, a dança, a coreografia, os figurinos, a performance e, principalmente, a energia coletiva. É música que contagia, para ser vivida e não apenas ouvida. Talvez por isso o jovem brasileiro tenha recebido o K-pop com tanta naturalidade.

Mas a conexão não se limita à música. Os filmes e doramas também caíram no gosto dos brasileiros e abriram muitas portas para a Coreia em todo o mundo. Por meio dessas grandes produções, o público brasileiro passou a conhecer costumes, relações familiares, gastronomia, comportamentos, paisagens e diferentes aspectos da sociedade coreana.

A cultura coreana passou a ser consumida, experimentada e, em muitos casos, incorporada. Há ainda uma identificação que considero especialmente importante: a força da mulher.

A mulher brasileira conhece muito bem a rotina de sair cedo de casa, trabalhar, enfrentar desafios, cuidar da família, construir sua carreira e lutar por seus objetivos. Quando ela olha para uma mulher coreana, encontra nela muitos desses mesmos valores: dedicação, responsabilidade, força e disposição para conquistar seu espaço.

Ao mesmo tempo, nós também enxergamos na Coreia algumas características que admiramos e que podem servir de inspiração como o compromisso com o trabalho, a disciplina e o foco nos estudos.

Talvez esteja aí uma das chaves dessa aproximação: não encontramos apenas uma cultura diferente da nossa. Encontramos uma cultura que, em muitos aspectos, nos parece familiar e, em outros, nos inspira.

E essa aproximação não começou agora. Antes dos doramas dominarem as plataformas de streaming e o K-pop se transformar em um fenômeno global, artistas como Psy já colocavam a música coreana no radar internacional. Desde então, a chamada onda Hallyu — a expansão global da cultura sul-coreana — só ganhou força.

Hoje, a Coreia se tornou um verdadeiro produto cultural de alcance mundial. Mas acredito que reduzir esse fenômeno a uma estratégia de entretenimento seria pouco. Existe uma construção cultural muito mais profunda acontecendo.

O brasileiro não está apenas assistindo a um dorama, está descobrindo uma cultura. Não está apenas ouvindo K-pop, está conhecendo uma nova forma de expressão musical e artística. Não está apenas experimentando um prato coreano, está se permitindo conhecer novos sabores e tradições. E, nesse processo, os dois países vão se aproximando.

Tenho acompanhado essa relação há mais de duas décadas. Quando comecei a trabalhar para aproximar brasileiros e coreanos, a cultura coreana ainda estava longe de ocupar o espaço que ocupa hoje. Por isso, é interessante observar o atual momento sem tratá-lo simplesmente como uma moda.

Hoje, muitas pessoas passaram a falar sobre a Coreia porque o assunto está em evidência. Mas para quem acompanha essa história há tantos anos, o que vemos agora é menos uma novidade e mais o resultado de uma construção que vem amadurecendo ao longo do tempo.

O crescimento da cultura coreana no Brasil mostra que a distância geográfica não impede a proximidade cultural.

Brasil e Coreia têm histórias, idiomas e tradições diferentes. Mas também compartilham algo poderoso: a capacidade de se reinventar, de valorizar suas raízes e, ao mesmo tempo, olhar para o futuro.

E é nessa troca que está a força da conexão entre os dois países.

 

Sobre Yoona Kim

Yoona Kim é jornalista, escritora e uma das principais vozes de divulgação da cultura coreana no Brasil. Coreana radicada no país, dedica-se há mais de duas décadas à aproximação cultural entre Brasil e Coreia do Sul, atuando na difusão da história, dos costumes e das manifestações culturais coreanas.

Autora de livros e documentários sobre a cultura e a presença coreana no Brasil, Yona acompanha de perto a expansão da chamada Hallyu — a onda cultural sul-coreana — muito antes de o K-pop, os doramas, a gastronomia e a K-beauty alcançarem a atual popularidade entre os brasileiros.

Instagram: @yoonakim.info

Site oficial: https://www.yoonakim.com.br/